CRÔNICA: FOI A RÚSSIA QUE ME SALVOU

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Era dia dois de agosto de dois mil e dezessete. Eu embarcava em uma viagem que seria muito difícil pra mim, embora eu estivesse ainda anestesiada.

Menos de dois meses antes eu estava de mudança agendada para um outro estado brasileiro, casamento marcado, apartamento montado, lua de mel idealizada e muitos sonhos no coração. Porém, muitas vezes, a vida tem outros planos pra gente e quase sempre não fazemos ideia e nem imaginamos quais eles sejam.

De uma hora pra outra tudo mudou. O relacionamento acabou e eu não tinha nem mais móveis na sala do meu apartamento onde eu morava. Tinha ido tudo embora na mudança. Meu emprego também escorreu pelas minhas mãos inesperadamente. E pra fechar o combo que confirma o ditado mais acertado que já existiu “uma merda nunca vem sozinha”, minha melhor amiga estava de mudança para os Estados Unidos.

Não sei como sobrevivi ao mês seguinte de todos esses ocorridos, mas sei que desde que tudo começou a desmoronar, eu só conseguia pensar em uma coisa: viajar.

Pareço louca, né? Mas na primeira crônica dessa série aqui do blog eu contei o que as viagens representam pra mim: recomeços.

Leia mais: Crônica: Nasce uma viajante

Eu ansiava desesperadamente por um recomeço, mesmo que ainda não tivesse nem entendido tudo que se passava. Mas intuitivamente eu sabia que só uma viagem me salvaria.

Lembro que comecei a pensar nos países que entrariam para o meu roteiro e o primeiro a vir na minha cabeça foi a Inglaterra, já que havia morado lá há dez anos e morria de saudades de Londres.

Só que eu precisava de algo novo, um país que me desafiasse. E aí, meu sonho de menina de conhecer a Rússia gritou enlouquecidamente. Explico o sonho infantil: desde que vi as fotos em algum livro da escola eu queria muito conhecer os “castelos coloridos” de Moscou (mais conhecidos como Catedral de São Basílio) e a Praça Vermelha.

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Aquela era a hora. Mil medos na minha cabeça, mas muita esperança no peito. Era antes da Copa do Mundo, então não tinha tanta informação de lá e fiquei me questionando se seria uma viagem tranquila para uma mulher sozinha.

O que mais eu tinha a perder? Nada, pensei. E aí foi tudo no impulso! Em uma semana eu estava com todo o roteiro organizado, passagens compradas e hostels reservados. Acabei incluindo Bélgica e Croácia no itinerário.

Londres foi lindo, me trouxe muitas lembranças boas, mas eu ainda estava muito conectada ao Brasil e acabei vivendo alguns momentos depressivos. Amei conhecer a Bélgica, principalmente porque enchi a cara de batata frita e waffles de Nutella, mas não consegui me socializar, pois ainda estava muito machucada.

Foi a Rússia que me salvou. Eu pisei naquele país e já senti uma energia diferente: era a esperança de dias melhores bem pertinho de mim.

Minha primeira cidade foi São Petersburgo, pois eu queria deixar o melhor pro final. Quer saber? Acabei me apaixonando loucamente por Peters (assim que a cidade é carinhosamente chamada).

Essa foi a primeira viagem que fiz sem pesquisar muito antes de ir, já que aconteceu tudo de supetão. Já tinha ouvido falar da Igreja do Sangue Derramado, mas não fazia ideia de sua beleza!

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Eu tinha chegado bem cedo em Peters e decidi ir para o hostel tirar um cochilo antes de começar meu dia de passeios. Acordei e saí andando sem rumo pela rua mais famosa de lá (Nevsky Prospekt) e lembro como se fosse hoje de quando avistei ao lado esquerdo da rua a igreja mais linda da cidade.

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Sabe quando você fica incrédulo com uma coisa? Fui andando na direção dela sem acreditar que aquelas cores eram possíveis em uma igreja, porque era tudo tão lindo! Tentando entender porque seu topo parecia com cones de sorvete e como aquilo era original e maravilhoso! E por fim, como tinham tantos detalhes em todo o prédio e como tudo ornava bem! Sério, eu fiquei ali mais de uma hora admirando cada parte dela. E voltei TODOS os dias em que estive na cidade para reverenciá-la.

Esse foi o primeiro dia em que nenhum problema veio à minha mente e eu me senti completamente feliz de novo.

No dia seguinte eu fui visitar o Hermitage e depois, como tinha um rapaz russo tocando músicas lindas em frente ao museu, decidir ignorar o roteiro do dia e aproveitar aquela tarde deliciosa sentada no chão da praça, ouvindo música russa de ótima qualidade, com um solzinho no lombo. Esse foi o segundo dia em que nenhum problema veio à minha mente e eu me senti completamente feliz de novo.

Mais um dia se passou. A felicidade continuava ali e ela resolveu dar as mãos para a ansiedade, já que eu não via a hora de chegar em Moscou.

Foram quatro horas de trem entre uma cidade e outra. Corri pro hostel para deixar a mochila e parti mais rápido que Usain Bolt para ver a “minha igrejinha”.

Que sensação quando vi o Kremlin, que fica ao lado da Praça Vermelha, despontando lá no final da Avenida Tverskaya! Corri mais ainda e comecei a ver os detalhes coloridos da São Basílio dando o ar da graça. Não teve como não chorar. Foi lindo!

Aquele foi um dos momentos mais incríveis da minha vida. Eu estava realizando um sonho. E esse foi o quarto dia em que nenhum problema veio à minha mente e eu me senti completamente feliz de novo.

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A Rússia me fez acreditar na vida novamente. Vida essa que tinha me tirado tantas coisas em tão pouco tempo e me trouxe momentos lindos logo depois. Como ser ingrata? Naquele instante eu entendi que a vida é feita de ciclos, de altos e baixos e quando a gente sai um pouco do prumo, ela logo trata de se endireitar. E por isso a gente deve continuar acreditando.

Cópia de CATCH THE 2 - CRÔNICA: FOI A RÚSSIA QUE ME SALVOU

Até hoje me pergunto o que se passava na minha cabeça quando decidi fazer uma viagem de um mês sozinha, depois de passar por um dos piores momentos da minha vida, estando completamente fragilizada emocionalmente. No entanto, logo depois agradeço por ter tomado aquela decisão.

Obrigada, Rússia.

Flavia Goulart

Autor: Flavia Goulart

Flavia Goulart é carioca e ama viajar. Hoje com 32 anos, segue o lema “trabalhar pra viajar”, já conheceu 26 países e assim vive feliz da vida!