CRÔNICA: UMA NOTÍCIA BOA E OUTRA RUIM

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Eu tinha acabado de chegar no aeroporto Charles de Gaulle em Paris, e vi umas cadeiras no estilo espreguiçadeira com tomada bem ao lado. Nada melhor que isso para passar o tempo nas minhas cinco horas de conexão antes de pegar meu voo de volta ao Brasil.

Conectei o wi-fi, abri meu aplicativo da Globo Play (isso não é publi, juro) e botei pra rodar mais um capítulo de A Força do Querer. Por algum motivo, durante todo o tsunami que abalou a minha vida, as aventuras de Bibi Perigosa e sua turma me fizeram desligar um pouco dos problemas.

Faltava uma hora para o voo sair, e louca do aeroporto que sou (entenda como aquela que tem pavor de perder um voo), me direcionei ao portão de embarque.

A área do meu portão estava lotada! De um lado, um voo pra China saindo – já consegue imaginar o furdunço dos chineses, né? – de outro, um voo pra SP, e no canto, a televisão indicava que meu voo para o Rio estava confirmado, on time. Gloria à Deuxxx.

Resolvi me sentar num banquinho que tinha acabado de ficar vago e comecei a zapear aleatoriamente pelo feed do meu Facebook.

Não sei se já contei pra vocês, mas essa viagem era um “retiro espiritual” que eu precisava fazer, depois de um término de noivado terrível, no estilo “Noiva em Fuga”. No caso, o noivo.

Foram 30 dias perambulando sozinha pela Europa, na tentativa de me refazer e seguir minha vida. Naquela altura da viagem – o fim – eu já estava mais tranquila, cheia de ideias de decoração pra minha casa e pronta pra recomeçar.

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Senti uma dor física no coração, daquelas que a gente sente quando termina uma relação, sabe? Parece loucura, mas o coração dói mesmo.

Faltava meia hora pro voo sair, a fila já estava acabando e eu precisava tomar coragem pra levantar daquele banco e embarcar. Mas como? Como eu vou aguentar onze horas de voo, sem ninguém pra desabafar, sem internet e com aquela bomba no colo?

Liguei pra minha tia, minha psicóloga amadora durante todo esse período, e ela me aconselhou a pedir um remédio de dormir pra comissária de bordo, dizendo que eu tinha acabado de receber uma notícia muito triste da minha família. Mentir era um dos meus últimos problemas naquela hora.

 

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39, 40, 41, D, E, F! É aqui! Fui uma das últimas a entrar no avião, então tive que pedir licença à senhora que estava sentada no corredor da minha fileira e ao homem que estava no meio. Eu estava bem atordoada nessa hora e aproveitei que a internet ainda estava pegando, pra ligar pra minha melhor amiga em busca de um conforto. Eis que a minha ligação é interrompida:

– Quer um chiclete?

– Não, obrigada.

Que mané chiclete! Eu lá quero um chiclete agora?

Cinco minutos se passaram e eu me lembrei que uns 50 dias antes, uma amiga dessa minha tia, que trabalha com tarôs e espiritualidade, virou pra mim e disse: você vai conhecer um homem loiro num avião. Ele é mais velho que você.

Olhei para o homem que havia me oferecido o chiclete e adivinha só? Loiro e possivelmente mais velho que eu.

– Você ainda tem aquele chiclete que me ofereceu?

– Claro, toma aqui! Você é brasileira?

– Sim, sou do Rio! E você, é de onde?

– Sou da Suécia! Tô indo para Brasília a trabalho.

A aeromoça chegou com o remedinho, toda preocupada, dizendo que ela nem poderia fazer aquilo, mas que havia pego um remédio dela, já que viu minha aflição. O detalhe é que, quando ela apareceu na minha fileira, eu estava de papo com o sueco, esboçando preocupação zero.

Conversa vai, conversa vem, três horas se passaram e o remédio começou a fazer efeito. Pedi desculpas ao gringo e disse que precisava dormir.

Na manhã seguinte acordei e ele estava lá, com seus belos olhos azuis abertos, cheio de energia. O papo continuou rolando solto até o avião aterrissar. Nesse meio tempo, rolou lista de comidas brasileiras que ele não poderia perder, algumas frases básicas em português e uma troca de e-mails, porque talvez ele desse um pulo no RJ.

Só sei que, durante aquelas onze horas de voo, eu nem lembrei que meu ex existia. Essa memória só voltou à minha mente, quando cheguei no Galeão e minha tia estava atônita sem saber em que estado em me encontrava.

O que rolou com o gringo depois disso? Um ano e meio de papos diários pelo telefone e Whatsapp, uma vinda dele ao Rio, e duas idas minhas à Suécia. Mas o melhor foi que, essa relação de amizade colorida à distância que vivemos, me ajudou a passar por aquela situação tão complicada.

E eu achando que tinha que voltar pra night e pro Tinder pra conhecer alguém…

 

Flavia Goulart

Autor: Flavia Goulart

Flavia Goulart é carioca e ama viajar, principalmente sozinha. Desde nova sonhava em conhecer o mundo e transformou isso em um estilo de vida. Com 33 anos já conheceu 32 países e sua meta é continuar conhecendo lugares, culturas e pessoas.