CRÔNICA: OS ENSINAMENTOS DE UMA VIAGEM DE BARCO PELO LAOS

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Em fevereiro/março de 2019 fiz uma viagem ao sudeste asiático, e como contei no Instagram (clica aqui pra me seguir!), eu tinha uma ideia de roteiro, mas fui decidindo muitas coisas na hora.

Não estou acostumada com isso, porque tanto na vida, quanto em viagens, sou bem planejada e nada impulsiva. Mas dessa vez achei que valia à pena enlouquecer meu lado controlador.

Tudo foi caminhando bem até o dia de chegar em Chiang Rai – cidade ao norte da Tailândia – e definir como eu entraria no Laos. Eu tinha três opções: um voo de cerca de uma hora, uma viagem de ônibus de dezoito horas por estradas que eu não fazia ideia de como seriam e uma viagem de barco que levaria dois dias pelo Rio Mekong.

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Fiquei muito indecisa, sofrendo com aquilo, porque eu normalmente escolho as coisas muito rápido e odeio ficar enrolando.

Mas eu escolho as coisas rápido em duas situações: uma quando são escolhas que não serão definitivas nem irão afetar muito a minha vida, tipo uma roupa ou um creme; e a outra são coisas mais duradouras, porém, depois de estudar muito aquilo. Aí, se eu tenho opções, eu escolho rapidinho.

Só que no caso do Laos, eu não tive muito tempo de estudar aquelas rotas e seria uma experiência um pouco mais séria do que escolher uma blusinha. Cansada de refletir, decidi pela viagem de barco, porque afinal, eu estava fazendo aquela trip também, por buscar novas experiências.

Na manhã seguinte acordei às cinco da manhã para enfrentar a longa aventura. O barco saía da fronteira da Tailândia com o Laos, então ainda tinham quatro horas de van + ônibus até a divisa dos países.

Foram várias paradas no caminho e quase uma hora perdida na imigração, mas cheguei sã e salva para pegar o barco.

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Assim que pisei nele, vi que não seriam horas fáceis. A estrutura não era nada boa e seriam sete horas no primeiro dia e mais oito no segundo. A viagem seguiria pelo rio, mas pararíamos em uma comunidade no meio dele para dormir em terra firme.

As cadeiras até eram acolchoadas, mas não eram nada confortáveis, não tinha muito espaço para as pernas e os bancos não eram presos ao chão, o que fazia com que tudo fosse ainda mais desconfortável. A minha sorte é que sentei perto de duas meninas que eu havia conhecido no ônibus, e a fileira tinha quatro assentos, então ficou mais espaçoso e em determinado momento da viagem, uma mudou de lugar e pude até deitar.

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Lá fora as coisas não ajudavam muito, porque a vista era sempre igual. No início da viagem era excitante porque era diferente, mas depois de quatro horas já não tinha mais a mesma graça.

Como distração só me restava meu livro para ler e pessoas para conversar, porque a internet não pegava.

O fim do dia chegou e aquela primeira parte foi vencida! Menos um dia, eu pensei!

A chegada na comunidade foi um pouco triste porque a gente se deparou com uma pobreza que eu ainda não tinha visto no sudeste asiático. Crianças bem pequenininhas e sujas agarravam suas pernas pedindo por comida e dinheiro. Foi de cortar o coração.

A pousada não tinha nenhum luxo, pelo contrário! O quarto cheirava a mofo, o chuveiro era uma porcaria, mas dormir numa cama era tudo que eu precisava para me recompor.

A viagem do dia seguinte foi ainda pior. O barco era menor que o primeiro e quase não consegui assento, pois fui uma das últimas a entrar e eles vendiam mais passagens do que lugares disponíveis.

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Meu assento inicial não tinha espaço nem para colocar as pernas! A sorte é que depois de uma hora, avistei um que estava vago e que daria para esticá-las.

Sem conforto algum, o tempo passou. E na maior parte desse tempo eu fiquei pensando e me culpando por ter escolhido o barco. Poxa vida, eu tive três opções e escolhi a pior! Por quê?

Bom, o motivo eu não sei, mas em algum momento me veio a consciência, e eu comecei a entender que não adiantava me punir. E como sempre gosto de fazer, comecei a comparar a viagem com a vida.

Muitas vezes tomamos decisões, que aos nossos olhos parecem estar erradas, mas a gente precisa lidar com isso e se perdoar. Por dois motivos: um porque no momento da decisão a gente achou que aquilo seria o melhor a fazer e segundo, que reclamar e se culpar não resolve nada. O que resolve? Aceitar, aprender e seguir em frente.

E ainda digo mais: eu acredito que sempre tem um porquê de termos escolhido certos caminhos. E na maioria das vezes, a gente não vai conseguir explicar racionalmente, mas têm coisas que precisamos viver, por mais dolorosas que sejam.

Quando eu me dei conta disso, a viagem já estava no fim, mas nas últimas horas, tudo se tornou mais fácil. Eu consegui enxergar beleza naquela experiência que só me parecia negativa.

Comecei a perceber que por conta da minha frustração, eu não estava me ligando que o que eu mais amo fazer em viagens, estava ali diante dos meus olhos: moradores locais subindo e descendo do barco nas diversas paradas pelo rio, crianças acenando pra nós, novos amigos que eu fazia em pequenas conversas durante aquelas oito horas.

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Comecei a admirar cada detalhe que acontecia à minha volta: o contraste entre aquela pobreza de não se ter o que comer e os gringos no barco com seus Iphones e Ipads de última geração, a vegetação laosiana da margem do rio, o fato de eu ter tido sorte eu conseguir assentos melhores, os elefantes selvagens se banhando e velhinhos franceses que sofreriam muito mais do que eu naquele barco desconfortável, sorrindo e curtindo cada minuto.

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Depois, em Luang Prabang, eu me dei conta de que se eu não tivesse feito aquela viagem de barco país à dentro, eu não teria tido a imagem real dele. LP é uma cidade charmosa e linda, mas não representa a realidade do Laos.

Aí você se pergunta: será que realmente foi uma decisão errada? Vi tanta coisa, aprendi tantas outras. Errada era a minha visão daquilo, que só priorizava a frustração e o desconforto. Que bom que consegui perceber a tempo e valorizar, ainda que fosse nos últimos minutos!

Beijos,

Flavia Goulart

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Autor: Flavia Goulart

Flavia Goulart é carioca e ama viajar, principalmente sozinha. Desde nova sonhava em conhecer o mundo e transformou isso em um estilo de vida. Com 33 anos já conheceu 32 países e sua meta é continuar conhecendo lugares, culturas e pessoas.