CRÔNICA: PERRENGUE POUCO É BOBAGEM

BULG COVER - CRÔNICA: PERRENGUE POUCO É BOBAGEM

Quando planejei meu mochilão de 2008, não tinha experiência nenhuma com viagens. Tinha acabado de pegar o segundo avião da minha vida, na minha primeira viagem internacional.

Naquela época, não tinha blog nem Instagram cheio de dicas. Era guia de papel e algumas informações na internet. Eu ainda não tinha me formado em turismo e tampouco tinha trabalhado em agência.

Mas eu decidi que seria capaz de montar minha viagem inteirinha, sozinha. Uma merda tinha que dar, né?

Leia mais: NASCE UMA VIAJANTE

A verdade é que fui muito bem-sucedida nesse planejamento, exceto quando vacilei em checar se eu precisava de visto. Como o projeto inicial era ficar pela União Europeia, com pequenas escapadas, me acostumei com aquela realidade tranquila de só mostrar o passaporte a cada entrada em um novo país.

Só que não foi bem assim na Sérvia. Hoje, brasileiro entra só com o passaporte válido por até seis meses, mas nos primórdios de 2008, precisava de visto.

Eu estava em Sofia, capital da Bulgária. Já tinha me apaixonado pela arquitetura das igrejas ortodoxas russas e visto tudo que precisava, quando decidi que era hora de partir para um novo destino.

IMG 5431 563x750 - CRÔNICA: PERRENGUE POUCO É BOBAGEM

 

IMG 5433 - CRÔNICA: PERRENGUE POUCO É BOBAGEM

A Sérvia não estava nos meus planos, mas eu viajava pela Europa com um passe global de trem, então toda vez que mudava de país, tinha que analisar a melhor logística, pra evitar o menos número de baldeações possível.

Abri o mapa e comecei a brincar. Lembrei que a canadense que eu conheci em Praga, tinha me recomendado muito visitar a Croácia. E a Croácia, meus queridos leitores, não era esse burburinho todo que é hoje. Estava começando a despontar como a “nova Grécia”. Achei que era válido.

Analisei o mapa, o timetable dos trens europeus e vi que entre a Bulgária e a Croácia ficava um país chamado Sérvia. Lembrei das aulas de história, de Belgrado e decidi: por que não? Reservei o hostel e parti no dia seguinte para a estação.

O trem não era nada confortável, mas eu já estava acostumada, afinal estava rodando o leste europeu há algumas semanas, e por lá é assim mesmo. Aliás, continua assim até hoje.

Duas horas e meia de viagem se passaram e atravessamos a fronteira entre a Bulgária e a Sérvia. O trem parou para fazer os procedimentos normais de travessia, e os policiais entraram nos vagões para fiscalizar os vistos. Um deles pediu meu passaporte, analisou página por página e perguntou porque eu estava viajando sozinha, muito desconfiado.

Aí ele pegou o rádio e começou a falar naquela língua que só Jesus pra entender e eu comecei a ficar nervosa. Isso durou uns 20 minutos. Então ele veio com a pergunta que me gelou dos pés a cabeça: onde está o seu visto? Eu, num misto de inocência com a malandragem digna de uma carioca respondi: mas precisa de visto?

Ele respondeu que sim e eu novamente tentei engambelar o policial dizendo que tiraria o visto assim que chegasse em Belgrado. Obviamente não colou.

A essa altura, a galera que estava no trem, já estava me fuzilando com os olhos, porque ele já estava parado fazia quase uma hora. O policial falou que eu teria que descer e levar todos os meus pertences comigo, porque o trem sairia sem mim.

Agora pensa comigo: eu tinha 22 anos, minha primeira viagem internacional, mulher, sozinha, no meio do nada entre dois países nem um pouco familiares para nós brasileiros, tendo que descer de um trem sem saber para onde eu ia e onde eu iria dormir. Acrescente o fato de que eu estava cercada de vários policiais, todos homens. A sorte é que eu consigo me controlar muito em momentos de desespero, o que sempre me salva de um surto e consequentemente, de não pensar claramente.

Para viagens internacionais, não se esqueça do seguro viagem! Aqui no blog, somos parceiros da Seguros Promo, buscadora de seguros com várias opções e preços excelentes! Usando nosso cupom, você ganha 5% de desconto (WENEEDISTRAVEL5) e se pagar no boleto, tem mais 5% de desconto.

Clica aqui para fazer uma cotação e ajudar o blog a se manter com conteúdo de qualidade!

Eles me levaram para uma salinha e ficaram com meu passaporte. Me disseram que eu teria que voltar para Sofia, e que me colocariam no próximo trem que passasse para a capital búlgara.

Isso demorou quatro horas para acontecer. Durante o período que fiquei “presa”, comecei a pensar no que faria quando chegasse à Bulgária e a marcar no guia, os nomes e telefones de hostels em que eu poderia dormir. Eu estava bem apavorada de chegar lá à noite, porque odeio chegar em uma cidade quando já está escuro, principalmente quando não tenho reserva em lugar nenhum.

Finalmente o trem chegou e os policiais me botaram pra dentro. O trem era daqueles clássicos do leste europeu, com cabines ao invés de assentos seguidos no estilo avião. E as cabines tem portinhas para uma maior privacidade. Só que naquela hora, privacidade não era o ideal.

Se vocês estavam achando que essa história de perrengues acabaria por aqui, infelizmente não. Tá só começando.

O único lugar disponível que achei, foi dentro de uma cabine de seis lugares, com três homens dentro. Eu viajava com meu mochilão nas costas, uma mochilinha de ataque na frente e uma sacola plástica com alguns biscoitos e água.

Cumprimentei meus companheiros de viagem, mas eu estava tão tensa que nem tirei a mochila das costas. Logo que o trem deu partida, um dos homens começou a puxar assunto. Só que ele não falava inglês e eu não falava búlgaro. Nem sei como a conversa rolou, mas sei que me fiz entender que eu era do Brasil e eles, que gostavam muito do nosso futebol. Descobri logo depois, que eles queriam mais do que futebol de uma brasileira.

Na próxima parada que o trem fez, um homem entrou e bateu na porta de cada cabine para fazer o seu “negócio”.  Negócio esse que me pareceu tráfico, pois quando ele adentrou minha cabine, os homens que estavam comigo, levantaram, arrancaram a tampa da lâmpada, de onde tiraram pacotes que me pareceram ser de drogas, entregaram ao homem, que lhes deu dinheiro.

Agora pensa comigo: eu tinha 22 anos, minha primeira viagem internacional, mulher, sozinha, no meio do nada entre dois países nem um pouco familiares para nós brasileiros, tendo que presenciar aquela cena, sabendo que eu estava naquele trem e se batesse polícia, eu poderia ser acusada. Acrescente o fato de que eu estava cercada de vários homens, que agora eu sabia que eram traficantes. A sorte é que eu consigo me controlar muito em momentos de desespero, porém minha tranquilidade já estava indo embora.

E aí, meus amigos, cabe muito aquele ditado que diz que uma merda nunca vem sozinha.

Alguns minutos depois de tudo isso acontecer, um dos homens da minha cabine, resolveu começar a me beijar na bochecha. Eu paralisei. Estava apavorada. Queria bater nele, me afastar, mas ao mesmo tempo não sabia se ele tinha uma arma, uma faca ou qualquer coisa, afinal ele era um traficante. E pior, pelo que eu havia percebido, todos no trem conheciam o tal homem que estava “comprando” as drogas, então todos ali eram parceiros. Não adiantava eu gritar e pedir ajuda.

Um me dava beijos na bochecha e o outro, da frente, fazia gestos insinuando que queria dormir comigo. Eu só pensava em como eu tinha me metido naquilo tudo. E rezava para todos os deuses que eu já tinha ouvido falar.

Agora pensa comigo: eu tinha 22 anos, …, tendo que enfrentar aquilo tudo sozinha, cheia de medo de acontecer algo pior. Acrescente o fato de que eu estava desesperada sem saber se conseguiria algum lugar para dormir. Só tinha desespero comigo nessa hora.

Quando eu finalmente reconheci que estávamos chegando em Sofia, tentei aguentar firme e pensar que aquele inferno estaria acabando. Graças aos deuses que ouviram as minhas preces, eles não tentaram mais nada além dos beijos na bochecha.

Chegando na estação, eu levantei correndo para sair da cabine, e me livrar daquilo. Só que um deles resolveu correr também. Eu não conseguia acreditar naquilo, mas pensei: vou correr muito quando abrir a porta do trem e me safar desse desgraçado.

Assim fiz, mas na hora que ia descer, ele puxou a minha mochila e eu quase caí. Não desisti, puxei de volta e consegui me safar dele. NINGUÉM FEZ NADA PARA ME AJUDAR. E ele não se deu por vencido: continuou correndo atrás de mim pela estação, até que finalmente eu me escondi num canto e ele não me achou mais.

Alguns minutos se passaram, e eu corri para o orelhão pra ligar para algum hostel na esperança de ter vaga. Tinham poucos hostels em Sofia nessa época, era a alta temporada do verão, eu precisava de uma cama para aquela noite e não podia estourar meu orçamento. Nenhuma cama disponível, nos 5 hostels listados no meu guia.

Parti atrás de um táxi e pedi pro motorista ir parando em alguns hotéis mais simples atrás de um quarto. Finalmente consegui e até agradeci que ficaria num quarto privado aquela noite.

Fui até o Mc Donald’s mais perto, comi, e quando voltei pro hotel, deitei na cama e chorei copiosamente por muito tempo, até adormecer.

Não deixei que aquela experiência ruim atrapalhasse o meu dia seguinte, nem os próximos. Não seria justo comigo mesma e nem com aquela viagem, que até então havia sido maravilhosa. Por isso, acordei, abri meu sorriso e lembrei que eu tinha um dia novinho à minha frente, pronto pra ser usado. Apesar de tudo, me livrei do pior.

Tive que pegar outro trem, dessa vez para Budapeste, para tentar chegar à Croácia de outra maneira. E deu tudo certo!

As viagens são como a vida: uns dias bons e outros ruins. Muito mais dias bons do que ruins.

E aprendi a lição: nunca mais viajo sem confirmar 30 vezes se o destino precisa de visto.

Beijos,

Flavia Goulart

Leia mais:

FOI A RÚSSIA QUE ME SALVOU

UM ENCONTRO QUE ME FEZ ENXERGAR QUE EU MERECIA MAIS

Autor: Flavia Goulart

Flavia Goulart é carioca e ama viajar, principalmente sozinha. Desde nova sonhava em conhecer o mundo e transformou isso em um estilo de vida. Com 33 anos já conheceu 32 países e sua meta é continuar conhecendo lugares, culturas e pessoas.