CRÔNICA: NASCE UMA VIAJANTE

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Quando você tem 22 anos e está viajando sozinha, além de claro conhecer os lugares, você quer diversão. E uns gatinhos pra beijar na boca. Mas não é só isso.

Me lembrou até aquela propaganda da Polishop, que te oferece a panela antiaderente e depois pra te convencer a comprar, vem com o brinde das facas Guinsu – não sem antes mandar um “E não é só isso!”.

Eu sempre fui muito madura e responsável para minha idade, então mesmo estando no auge da fase da irresponsabilidade autorizada, eu era uma menina centrada.

Viajar pelo mundo nunca foi uma realidade pra mim. Não posso reclamar que tenha faltado nada na minha infância/adolescência, mas a verdade é que minha família era dura. E o dinheirinho que rolava era investido na nossa educação.

Minha mãe é professora de Geografia. Uso o verbo no presente porque mesmo já tendo se aposentado da última escola (há pouco tempo, diga-se de passagem), ela continua ensinando. Não consegue fazer uma viagem de ônibus sem falar algo de um bairro do Rio de Janeiro ou explicar como se dá a formação de uma restinga. A minha infância foi toda assim.

Ela sempre gostou muito de viajar, mas por percalços da vida (meu pai sofreu de síndrome do pânico logo que casou e ficou com uma sequela de não conseguir ir para lugares muito longe), não conseguiu passear muito. Acho que inconscientemente acabou transferindo esse desejo pra mim no útero. Rs. Some isso ao fato de eu ter crescido em uma casa que deveria ter em torno de 150 atlas, o resultado é esse: uma mulher que ama viajar. E pra quem o ato de viajar tem um significado muito maior que conhecer destinos e atrações. Viajar pra mim é recomeçar, é uma dose de esperança.

Aos 17 anos, a pressão do vestibular era grande, tanto na escola quanto em casa. Mas a verdade é que eu não estava nem aí pra ele ou pra uma carreira. Continuo achando uma judiação fazer um adolescente escolher o seu futuro com esse idade, sem experiência nenhuma de vida e sem ter experimentado nada daquela profissão. Eu sempre disse que seria advogada, meu senso de justiça é muito forte, até hoje. Mas com 17 anos, eu começava a sentir os benefícios da liberdade e me descobrir como uma pessoa extrovertida. Comecei a pensar que o Direito talvez fosse muito sério pra mim e veio a ideia do Jornalismo.

E essa foi a escolha pro meu primeiro vestibular. Ficava sonhando em escrever para alguma revista: de viagens ou de beleza, que também sempre foi uma paixão (#AmoUmCreminho). Só que não passei e a situação em casa ficou bem complicada. Eu que sempre fui uma excelente aluna e a esperança da família, estava ali sem planos e uma atividade.

Pra resumir, minha mãe me deixou de molho pensando na vida, sem dinheiro, sem nada, por uns bons meses, até minha avó convencê-la de pagar uma faculdade pra mim. Assim foi feito e acabei voltando pro Direito.

Só que o Universo dá as cartas direitinho e já no terceiro período da faculdade (nem tão apaixonada assim), eu fui trabalhar num hostel pra ganhar um dinheiro. E aí a minha vontade de viajar veio forte. E não só de viajar. Eu queria ser livre. Eu via aquela gente viajando, trocando de cidades, se despedindo e foi impossível sustentar aquela realidade por muito tempo. Eu tinha que agir. E essa é uma baita qualidade que eu tenho: sou muito determinada. Falei pra minha família que abandonaria o curso (crise número dois, nível hard em casa) e que iria morar no albergue.

Aquela casa nunca mais foi a mesma. Rs. Minha mãe achava que eu estava morando num pardieiro (era assim que ela falava, dá um Google pra entender), com gente usando drogas e todo o mal do mundo (nada disso era verdade) e meu pai desesperado porque achava que eu não ia me alimentar direito. Mas eu tinha que viver aquilo. Eu queria decidir as coisas por mim, recomeçar, ver se eu realmente queria ficar trabalhando num escritório, se eu queria de fato me formar numa faculdade ou se eu seria uma hippie que venderia miçangas nas praias da Ásia.

Alguns meses depois, bati o martelo de que iria sair pelo mundo pra me encontrar e pra isso, precisaria trabalhar muito pra descolar essa grana. Arrumei mais um emprego e trabalhava todos os dias da semana, de manhã no hostel e à tarde numa loja.

Foram quase dois anos nessa loucura. Era muito cansativo, embora tenha sido um dos melhores momentos da minha vida! Eu conheci muita gente maravilhosa, que me deu muita força, que me apoiou e que me incentivou quando eu queria desistir. Ali mesmo no albergue eu criei uma família.

Por isso que eu acho genial esse meio de hospedagem. Mesmo que você não viva nele como eu, que apenas se hospede. É uma oportunidade de conhecer pessoas diferentes, com realidades completamente distintas, culturas do avesso da sua, e mesmo assim todos conviverem harmonicamente, respeitando o espaço do outro. Isso abre a mente de uma forma que só vivendo pra entender. A gente acaba estando sempre num mundinho fechado de pessoas iguais a nós e precisamos forçar a barra de vez em quando e sair dessa zona de conforto, pro nosso próprio bem e sanidade mental.

A meta de juntar dinheiro foi concluída com sucesso, mas nesse meio tempo, a vida me deu um soco bem no estômago quando meu pai descobriu um câncer avançado e faleceu seis meses depois. Eu acabei adiando a viagem por uns meses pra me recuperar e ficar com minha família, mas uma hora entendi que eu precisava seguir.

E aquela viagem que seria meu encontro comigo mesma, buscando meus propósitos reais, me serviu de superação também, para lidar com uma perda daquelas. E tantos outros benefícios e aprendizados vieram no pacote.

Eu morei por seis meses em Londres, onde aprendi tanta coisa, fiz amigos que mantenho até hoje, me apaixonei, me desapaixonei, trabalhei muito, lavei banheiro de escritório, fui chefe de cozinha (quem me conhece sabe que isso seria algo impossível), fui inspetora de escola, derrubei alguns pratos sendo garçonete, e fui muito, muito feliz. Eu tenho Londres guardado num lugar muito especial do meu coração, pois foi ali que me tornei uma mulher forte.

E de brinde ganhei um mochilão lindo de oitenta dias, por dezessete países, que me divertiu muito e me fez beijar algumas bocas maravilhosas (hahaha), mas o mais importante de tudo: me ensinou sobre amor, perdas, despedidas, amizades, surpresas incríveis e gente maravilhosa.

Também me mostrou qual o tipo de viagem que eu mais amo: as mais simples e as “solitárias” (é entre aspas mesmo, porque a gente nunca está sozinha). E me confirmou que viagem também é sobre recomeços.

Cópia de CATCH THE 2 - CRÔNICA: NASCE UMA VIAJANTE

Autor: Flavia Goulart

Flavia Goulart é carioca e ama viajar. Hoje com 32 anos, segue o lema “trabalhar pra viajar”, já conheceu 26 países e assim vive feliz da vida!